Estive no Parque Villa-Lobos, coração verde de São Paulo, para o evento “Summit Agenda SP+Verde”. Um encontro de líderes, especialistas e interessados na discussão climática, todos reunidos para debater o futuro do planeta e, claro, o tal da COP – a Conferência das Partes da ONU, o supra-sumo das decisões globais sobre as mudanças climáticas.
Mas o que vi ao sair da bolha de discursos e painéis de “economia verde” foi a realidade nua e crua da cidade, e talvez do Brasil.
Geralmente dou aula de ciclismo em parques de São Paulo e coincidente, naquele dia específico tinha uma aula programada. Como não tinha onde deixar minha bicicleta segura no “evento” sobre sustentabilidade, a solução foi alugar uma no próprio parque. E aí veio o tapa na cara.
A moça do caixa do aluguel de bikes, alheia ao burburinho de luxo e power point a poucos metros, me perguntou se eu estava no evento. Sim, eu disse. Ela, inocente, perguntou de novo: “É sobre o quê?”
Respondi, com um pouco de frustração: “É um evento para discutir as mudanças climáticas, uma pré-COP.”
A resposta dela, um espelho da desconexão: “Copa?”
E eu: “Não, COP.”
Essa breve e surreal troca de palavras é um retrato chocante. De um lado, centenas de pessoas discutindo trilhões de dólares e metas complexas de descarbonização em diversos eventos pré-COP. Do outro, a maioria da população, trabalhando no mesmo local, mal sabe que essa sigla existe.
Nós, que estamos na bolha, discutindo o 1,5ºC, as NDCs e o financiamento climático, falhamos miseravelmente em conectar essa agenda com o “cidadão comum”, com o caixa do parque, com o dia a dia de quem, ironicamente, mora no planeta que queremos salvar. De que adianta a retórica grandiosa e as decisões globais se o indivíduo que nos serve o café, nos orienta na rua, ou aluga a bicicleta para nossa aula, vive à margem dessa conversa?
A ironia final? É provável que essa moça, com seu trabalho no parque, viva uma rotina muito mais “sustentável” (por necessidade ou falta de opção) do que muitos dos palestrantes que voaram para o evento. Ela não sabe o que é COP, mas talvez o estilo de vida dela cause menos impacto do que o de quem está na sala debatendo a “Justiça Climática”.
Felizmente, sim, há gente tomando decisões no mundo. Mas é urgente perguntar: essas decisões estão sendo tomadas para quem e com quem? Enquanto a COP for confundida com a Copa, toda a nossa agenda climática corre o risco de ser apenas um belo, porém vazio, evento no parque.
